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A conta da representação: por que o vigor econômico de Bento Gonçalves exige voz própria nas urnas

há 6 minutos
4 min de leitura

A poucos dias do primeiro turno, município enfrenta o desafio de transformar planejamento local e força industrial em poder de decisão política no Estado e em Brasília.

No dia 4 de outubro, além da eleição para Presidente da República e Governador, também serão escolhidos os senadores, deputados federais e estaduais.
No dia 4 de outubro, além da eleição para Presidente da República e Governador, também serão escolhidos os senadores, deputados federais e estaduais.

O primeiro turno das eleições ocorre no próximo domingo, dia 4 de outubro. Milhões de eleitores gaúchos vão às urnas para definir a composição das bancadas na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados, além dos cargos do Poder Executivo. Em Bento Gonçalves, o pleito assume um significado que ultrapassa a habitual disputa entre siglas e ideologias. A votação coloca em teste a capacidade da comunidade de converter sua relevância econômica em peso político real nas esferas onde são distribuídos os recursos e tomadas as decisões estratégicas do país.

A cidade desenvolveu um modelo maduro de governança local. A atuação do Bento+20, manifestada no desenho e na consolidação do Masterplan, estabeleceu uma plataforma permanente de cooperação entre a gestão pública e a iniciativa privada. O documento reúne 90 diretrizes técnicas formuladas por 12 câmaras técnicas e setoriais para projetar o crescimento ordenado do município pelas próximas décadas. Essa cultura de planejamento de longo prazo garante previsibilidade, organiza o desenvolvimento urbano e atrai investimentos para os setores produtivos.

Contudo, o planejamento municipal encontra barreiras orçamentárias quando necessita de investimentos de grande porte para se materializar em obras físicas, ou quando o investimento foge do escopo de atuação da instância do poder público local. A execução dos programas e das ações estruturantes traçadas nas diretrizes depende do suporte financeiro de esferas superiores de governo. Recursos para grandes intervenções viárias de mobilidade, expansão do atendimento hospitalar, fortalecimento da segurança pública e programas de inovação exigem o fomento constante proveniente de emendas parlamentares, repasses de ministérios e projetos estaduais e federais. Sem o trabalho incisivo e direto de parlamentares comprometidos com a pauta da cidade, os projetos técnicos acumulam poeira em gabinetes ministeriais ou enfrentam a morosidade burocrática dos órgãos de controle.

O histórico de representação política da cidade revela um apagão prolongado na representação parlamentar. A eleição de Guilherme Pasin para a Assembleia Legislativa em 2022 interrompeu um longo jejum de 32 anos sem a presença de um deputado estadual legitimamente ligado ao município na capital gaúcha. Na esfera federal, a situação expõe uma lacuna ainda mais severa. Em 2026, Bento Gonçalves completa exatos 40 anos sem eleger um deputado federal para a Câmara dos Deputados. A última ocorrência registrada data do pleito de 1986, quando os nomes de Darcy Pozza e Paulo Mincarone conquistaram assentos em Brasília.

As consequências dessa ausência de quatro décadas na capital federal manifestam-se no volume de investimentos e na entrega de obras públicas ao longo dos anos. Em análise publicada em sua coluna no Jornal Semanário no dia 25 de setembro, o jornalista Henrique Caprara resgatou os ganhos conquistados pela comunidade no período em que contou com voz própria e atuante em Brasília. Obras e equipamentos públicos emblemáticos do município, a exemplo da construção do Ginásio Municipal de Esportes, a instalação do prédio próprio do Banco do Brasil e a viabilização da infraestrutura do Estádio Montanha dos Vinhedos, foram viabilizados pela articulação direta dos deputados federais eleitos pela população local junto aos ministérios.

A discrepância entre a capacidade econômica do município e seu retorno em políticas públicas fica nítida quando comparada ao cenário de outras localidades do interior gaúcho. Um levantamento realizado pelo jornal Correio do Povo sobre o índice de representatividade dos municípios expõe como a presença permanente na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados altera de forma radical a distribuição e o volume de verbas estaduais e federais direcionadas às cidades.

O município de Santo Augusto, com população estimada em 13 mil habitantes, conta com a atuação simultânea de um deputado federal e um deputado estadual. Essa articulação política direta garante à cidade aportes anuais superiores a R$ 18 milhões destinados exclusivamente ao custeio da saúde pública e obras de pavimentação urbana e rural. O município também figura com frequência no recebimento de máquinas agrícolas estaduais e viabilizou a implantação de um distrito industrial estruturado com forte investimento do governo gaúcho.

Situação análoga ocorre em Frederico Westphalen. Com uma população de aproximadamente 31 mil habitantes, o município também manteve assentos eleitos na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados. O resultado prático dessa presença política traduziu-se no fortalecimento e expansão das atividades do campus da UFSM na cidade, consolidado como a unidade mais relevante da instituição fora da sede de Santa Maria, além de garantir repasses financeiros vultosos para ações de combate e mitigação da estiagem na agricultura local.

Tanto em Santo Augusto quanto em Frederico Westphalen, as conquistas em infraestrutura, educação, saúde e apoio ao setor agropecuário mantêm relação direta com a existência de parlamentares locais atuando diariamente em Porto Alegre e Brasília. As verbas não chegam por acaso ou mera benemerência técnica da burocracia dos governos, mas resultam de negociações políticas intensas e contínuas conduzidas por quem tem compromisso eleitoral direto com a sua comunidade de origem.

Bento Gonçalves posiciona-se entre os polos econômicos mais pujantes do Rio Grande do Sul e do Brasil. A força industrial do setor moveleiro e metalmecânico, o protagonismo na vitivinicultura nacional, a diversificação da produção agrícola e a liderança no enoturismo fazem do município um motor arrecadador de riquezas e gerador de empregos. Essa expressão econômica precisa ser acompanhada de força política proporcional nas urnas no próximo domingo.

A escolha de candidatos locais, tanto para a Assembleia Legislativa quanto para a Câmara dos Deputados, apresenta-se como a ferramenta indispensável para fechar a lacuna entre o planejamento interno e a execução das grandes obras. Garantir assentos próprios nas instâncias do poder é o passo essencial para que o município deixe de ser apenas um doador de impostos e volte a ser protagonista no cenário político estadual e nacional.

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