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Aposta pública, risco privado: quando o Estado escolhe a sorte em vez do futuro

A retomada da loteria estadual e a explosão das apostas online levantam um alerta incômodo: que tipo de futuro se constrói quando o dinheiro fácil vira política pública e o endividamento das famílias vira dano colateral?



O anúncio de que o governo do Rio Grande do Sul pretende recolocar a loteria estadual em operação, somado ao crescimento vertiginoso das bets, expõe uma contradição que vai além da arrecadação. Nunca se falou tanto em planejamento, desenvolvimento sustentável e responsabilidade fiscal. Nunca se apostou tanto. E nunca as famílias estiveram tão endividadas. Algo nessa equação claramente não fecha.

O tema não é novo, mas ganhou contornos mais preocupantes nos últimos anos. O jogo deixou de ser ocasional e virou cotidiano. Está no celular, nos aplicativos, nas propagandas, no discurso fácil da renda rápida. Ao decidir entrar retornar a esse mercado, o Estado deixa de ser apenas regulador e assume o papel de promotor institucional do risco.


A economia do dinheiro fácil e o alerta da Federasul

O Manifesto Empreendedor 2026, lançado pela Federasul, foi direto ao apontar os perigos da chamada “economia do dinheiro fácil”. O documento alerta que apostas e jogos não produzem riqueza real, não geram produtividade e não fortalecem a base econômica do Estado. Ao contrário: drenam renda, fragilizam famílias e ampliam desigualdades.

A leitura é clara: apostar não é investir. Jogar não é empreender. E transformar isso em política pública é, no mínimo, um atalho perigoso.

Ao defender um futuro baseado em trabalho, inovação, educação e competitividade, o manifesto propõe uma ruptura com soluções fáceis para problemas complexos. A retomada da loteria estadual caminha no sentido oposto. Em vez de atacar as causas estruturais da crise fiscal, aposta no comportamento mais vulnerável da população como fonte de receita.


O custo invisível que ninguém contabiliza

O superendividamento não aparece de forma imediata nas planilhas do Estado. Mas ele cobra seu preço todos os dias. Dados nacionais já indicam crescimento da inadimplência associada a apostas, especialmente entre jovens e famílias de baixa renda. O que começa como entretenimento termina como angústia doméstica, conflito familiar e perda de capacidade produtiva.

Esse dinheiro não some apenas da conta bancária. Ele deixa de circular no comércio local, deixa de financiar educação, deixa de virar poupança ou investimento. Para cidades como Bento Gonçalves, que dependem de uma economia viva, baseada em trabalho e empreendedorismo, o impacto é direto, ainda que silencioso.

Enquanto se discute como reter talentos, estimular inovação e preparar jovens para o futuro, normaliza-se um modelo que ensina exatamente o contrário: ganhar sem produzir, vencer sem construir, enriquecer sem esforço.


Planejar o futuro exige escolhas desconfortáveis

O Bento+20 nasceu da premissa de que pensar o futuro não é exercício retórico. É decisão. Planejar 2035 ou 2040 exige olhar para tendências, riscos e comportamentos que moldam a sociedade. E isso inclui discutir o papel do Estado na cultura do jogo.

A pergunta central não é se a loteria gera receita. É a que custo social. Não é se as apostas são legais. É se são desejáveis como política pública em um cenário de fragilidade econômica e emocional das famílias.

O planejamento de longo prazo defendido pelo Bento+20 pressupõe coerência. Não é possível defender educação financeira e, ao mesmo tempo, estimular apostas. Não é possível falar em produtividade e apostar na sorte. Não é possível propor um futuro sólido com bases frágeis.


O futuro não se constrói no bilhete premiado

A provocação é necessária porque o risco é real. A banalização das apostas e a institucionalização do jogo como fonte de arrecadação podem até aliviar o caixa no curto prazo, mas corroem a base social no médio e longo prazo.

O Manifesto Empreendedor acerta ao apontar que o Rio Grande do Sul precisa escolher entre aprofundar vícios estruturais ou romper com eles. A volta da loteria estadual coloca essa escolha de forma explícita.

O futuro que Bento Gonçalves e o Estado pretendem construir não virá da sorte. Virá de decisões responsáveis, de trabalho, de educação e de coragem política para dizer não a atalhos fáceis. Porque desenvolvimento não é aposta. É projeto.

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